Aprender ensinando: o que a literatura diz sobre o ensino entre pares na formação em saúde

Uma das formas mais robustas de consolidar aprendizado é ensinar o conteúdo a outra pessoa. Na formação em saúde, essa prática existe de forma informal em praticamente todos os cursos, mas raramente é estruturada como estratégia pedagógica intencional. O que a evidência diz sobre o ensino entre pares, em que condições ele funciona melhor e o que as instituições poderiam fazer com isso.

Existe um fenômeno estudado pela psicologia educacional conhecido como “efeito protégé”: estudantes tendem a aprender mais profundamente quando se preparam para ensinar o conteúdo a outra pessoa. Ao antecipar a necessidade de explicar, organizam o conhecimento com mais cuidado, identificam ativamente as próprias lacunas e retêm a informação por mais tempo do que quando estudam apenas para si (1).

É importante, no entanto, distinguir três situações relacionadas mas distintas. A primeira é estudar com a expectativa de ensinar: o simples fato de saber que precisará explicar algo a outra pessoa já altera o processo de estudo, tornando-o mais ativo e mais organizado (1). A segunda é explicar efetivamente o conteúdo: a elaboração verbal em tempo real, com resposta a dúvidas e ajustes à compreensão do interlocutor, adiciona uma camada de processamento diferente da preparação silenciosa (2). A terceira é participar de um programa estruturado de ensino entre pares, com objetivos pedagógicos definidos, treinamento de tutores e mecanismos de feedback, que é o que a literatura chama de peer-assisted learning (PAL) (3). Essas três situações produzem benefícios distintos e merecem ser pensadas separadamente quando se projeta uma estratégia de ensino entre pares.

Na formação em saúde, alguma versão dessas três situações acontece o tempo todo, nos grupos de estudo, nos corredores dos hospitais, nos plantões e estágios. Residentes mais antigos ensinam os mais novos. Colegas de turma exploram casos clínicos. Essa prática informal é, em muitos currículos, uma das formas mais frequentes de exposição ao conteúdo e, ao mesmo tempo, uma das menos reconhecidas e estruturadas como estratégia de ensino.

O que a literatura diz sobre o ensino entre pares

A pesquisa sobre PAL em educação para as profissões de saúde tem crescido de forma consistente. Uma revisão de escopo publicada no BMC Medical Education em 2024, que sintetizou 24 revisões sistemáticas incluindo nove meta-análises, concluiu que os benefícios do PAL são evidentes tanto para quem aprende quanto para quem ensina e recomendou que as instituições considerem incorporá-lo de forma estruturada ao currículo (3).

Os resultados são robustos em dois sentidos: o ensino entre pares beneficia quem recebe o ensino (tutee), que aprende com uma linguagem mais próxima da sua e com alguém que tem memória recente das próprias dificuldades; e beneficia quem ensina (tutor), que consolida o conhecimento de uma forma que o estudo individual raramente alcança. A mesma revisão também apontou que o near-peer teaching, quando estudantes de anos mais avançados ensinam estudantes de anos iniciais, pode ser o método mais eficaz para o desenvolvimento de habilidades práticas entre estudantes (3).

Uma revisão histórica sobre estudantes de medicina como professores, publicada nos Advances in Medical Education and Practice, confirmou que a prática é comparável ao ensino convencional em contextos selecionados e que os estudantes-tutores apresentam benefícios acadêmicos e profissionais documentados (4).

Em que condições o ensino entre pares funciona melhor

A evidência é clara sobre as condições que distinguem o PAL estruturado da prática informal que já existe nos cursos. O recrutamento e o treinamento dos estudantes-tutores são variáveis críticas: onde programas formais de preparação para tutores existem, os resultados são consistentemente melhores do que quando o estudante é simplesmente designado para ensinar sem preparação (5).

Outros fatores relevantes incluem a clareza dos objetivos pedagógicos antes da atividade, a presença de mecanismos de feedback estruturado ao longo do processo e a integração da atividade ao currículo formal, não como evento isolado, mas como componente reconhecido e avaliado da formação.

É exatamente aqui que a maior parte das práticas informais falha: quando o ensino entre pares acontece fora do currículo, carece de estrutura, de objetivos claros e de feedback que permita ao estudante-tutor identificar onde sua explicação foi imprecisa. Sem esses elementos, o benefício cognitivo do “efeito protégé” ainda ocorre, mas de forma muito mais limitada do que quando a atividade é intencionalmente desenhada.

Como ambientes digitais podem apoiar o ensino entre pares

Ambientes digitais de simulação podem oferecer condições favoráveis para atividades de ensino entre pares, não como substituto da estrutura pedagógica, mas como suporte para a prática, para o registro e para a discussão do desempenho.

No Clinical Case, por exemplo, uma atividade pode ser organizada em duplas ou pequenos grupos: enquanto um estudante conduz o atendimento com o paciente virtual, outro observa aspectos previamente definidos (a qualidade da anamnese, a construção das hipóteses diagnósticas, a seleção de exames, a coerência da conduta). Ao final, os participantes comparam interpretações, justificam escolhas e identificam pontos que merecem revisão. O relatório pedagógico gerado ao final de cada caso documenta o processo de raciocínio com precisão suficiente para que essa discussão seja ancorada em evidências concretas, não em impressões genéricas.

O MedRoom Anamnesis pode apoiar dinâmica similar no domínio da comunicação clínica: os registros da interação com o paciente virtual servem como evidência para feedback e reflexão, permitindo que colega e docente discutam perguntas, decisões e momentos específicos da entrevista, em vez de oferecer comentários genéricos sobre "como foi a consulta".

É importante reconhecer, no entanto, que a tecnologia por si só não garante a aprendizagem. Para que essas atividades sejam pedagogicamente consistentes, é necessário definir objetivos claros, preparar os estudantes para oferecer feedback, utilizar critérios ou rubricas e realizar um debriefing supervisionado ao final. A plataforma oferece o substrato, mas é a estrutura pedagógica que transforma esse substrato em aprendizado real.

Uma prática que já existe (e que merece mais do que existir informalmente)

O ensino entre pares não é uma novidade na formação em saúde. Ele já acontece nos grupos de estudo, nos corredores dos hospitais, nos plantões e estágios. O que a evidência sugere é que essa prática, quando estruturada intencionalmente com objetivos claros, preparação dos tutores e feedback sistemático, entrega resultados pedagogicamente muito superiores à versão informal que já existe.

Para as instituições, isso representa uma oportunidade de aproveitar algo que os estudantes já fazem espontaneamente e transformá-lo em estratégia curricular com impacto mensurável sobre o aprendizado.

Quer entender como estruturar práticas de ensino entre pares na sua instituição com apoio de plataformas digitais? Fale com a equipe MedRoom e explore como simulação clínica e relatórios pedagógicos podem criar a estrutura que o PAL precisa para funcionar com rigor.


(1) KOBAYASHI, K. Interactive Learning Effects of Preparing to Teach and Teaching: A Meta-Analytic Approach. Educational Psychology Review, v. 36, art. 26, 28 fev. 2024. DOI: 10.1007/s10648-024-09871-4. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10648-024-09871-4

(2) FIORELLA, L.; MAYER, R. E. Role of expectations and explanations in learning by teaching. Contemporary Educational Psychology, v. 39, n. 2, p. 75–85, abr. 2014. DOI: 10.1016/j.cedpsych.2014.01.001. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0361476X14000022

(3) FENG, H.; LUO, Z.; WU, Z.; LI, X. Effectiveness of Peer-Assisted Learning in health professional education: a scoping review of systematic reviews. BMC Medical Education, v. 24, n. 1, p. 1467, 18 dez. 2024. DOI: 10.1186/s12909-024-06434-7. PMID: 39695653. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39695653/

(4) YU, T.-C. et al. Medical students-as-teachers: a systematic review of peer-assisted teaching during medical school. Advances in Medical Education and Practice, v. 2, p. 157–172, 2011. DOI: 10.2147/AMEP.S14383. PMID: 23745087. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23745087/

(5) BURGESS, A.; McGREGOR, D. Peer teacher training for health professional students: a systematic review of formal programs. BMC Medical Education, v. 18, n. 1, p. 263, 15 nov. 2018. DOI: 10.1186/s12909-018-1356-2. PMID: 30442139. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30442139/

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