Comunicação com o paciente: por que ela importa tanto quanto o diagnóstico?

A maior parte dos erros em saúde não nasce de falta de conhecimento técnico, mas de falhas de comunicação. E, diferente do que muitos pensam, essa é uma competência que se treina.

Um diagnóstico correto perde grande parte do seu valor quando não é bem comunicado. Uma anamnese incompleta pode levar a hipóteses equivocadas. Uma orientação mal compreendida pelo paciente pode comprometer todo um plano terapêutico bem construído. Esses cenários são mais comuns do que se costuma admitir e menos ligados à falta de conhecimento técnico do que à forma como esse conhecimento é comunicado.

O relatório mais recente de eventos-sentinela do The Joint Commission, referência internacional em segurança do paciente, reforça esse padrão. Ao analisar as causas de mais de 1.500 eventos sentinela registrados em 2024, a "falta de compreensão compartilhada entre a equipe de cuidado" aparece como um dos fatores contribuintes mais frequentes em praticamente todas as categorias de evento, de quedas a cirurgias em local errado, passando por atrasos no tratamento (1). Ou seja: mesmo quando o conhecimento técnico está presente, a comunicação (entre profissionais, e entre profissional e paciente) segue sendo um dos elos mais decisivos da cadeia de cuidado.

Quando o paciente não entende o que ouviu

O desafio não se limita à comunicação entre profissionais. Do lado do paciente, a dificuldade de compreender orientações médicas é igualmente relevante (e menos visível). Um estudo brasileiro com portadores de doenças cardiovasculares crônicas identificou que, entre os pacientes com letramento funcional em saúde inadequado, 58,3% relataram não compreender bem as orientações recebidas dos profissionais de saúde (2). Quase 29% afirmaram não seguir as recomendações não farmacológicas simplesmente porque não as entenderam bem.

Não se trata de pacientes desatentos ou profissionais despreparados. É um espaço de formação ainda pouco explorado: tradicionalmente, dedica-se muito mais tempo ao conteúdo técnico do que à forma como esse conteúdo é transmitido e verificado junto ao paciente.

A lacuna que ninguém percebe sozinho

Essa lacuna tem um agravante: profissionais tendem a superestimar a própria clareza. Uma revisão sistemática publicada na PLOS ONE, que reuniu estudos sobre estratégias de verificação de compreensão em consultas de saúde, cita um levantamento em que 75% dos cirurgiões acreditavam se comunicar bem com os pacientes, mas apenas 21% dos pacientes relataram satisfação com essa comunicação. Em outro estudo citado na mesma revisão, 77% dos médicos acreditavam que os pacientes sabiam seu diagnóstico, mas apenas 57% dos pacientes conseguiam recordá-lo corretamente (3). A distância entre o que se acredita ter comunicado e o que de fato foi compreendido raramente aparece; a menos que se pergunte diretamente.

É exatamente esse o princípio por trás do “teach-back”: pedir ao paciente que explique, com as próprias palavras, o que entendeu sobre diagnóstico, tratamento ou orientação recebida, fechando o ciclo de comunicação em vez de presumir que ele já se fechou sozinho. A mesma revisão da PLOS ONE analisou 20 estudos sobre a técnica e encontrou resultado positivo em 19 deles, com ganhos que vão da retenção de informação à redução de reinternações hospitalares (3). É uma prática simples, que acrescenta poucos minutos à consulta, mas que raramente é ensinada de forma estruturada.

Comunicação clínica não é traço de personalidade

Um dos equívocos mais comuns sobre comunicação em saúde é tratá-la como um dom natural: existiriam profissionais "mais comunicativos" e outros "mais técnicos", como se fossem categorias fixas. A literatura em educação médica não confirma essa divisão. Modelos como o guia Calgary-Cambridge, criado por Suzanne Kurtz e Jonathan Silverman na década de 1990 e hoje um dos frameworks mais utilizados no ensino de habilidades de comunicação clínica no mundo, estruturam a consulta em etapas e habilidades específicas e observáveis: abertura, exploração de sintomas, checagem de entendimento (o próprio teach-back é uma delas), fechamento. No Brasil, o guia já foi adaptado e validado para o contexto local, com evidências de que a habilidade pode ser mensurada, ensinada e aprimorada de forma sistemática (4).

Essa é a virada de perspectiva mais importante: comunicação clínica é competência, não personalidade. E, como toda competência, ela se desenvolve com prática deliberada: repetição, contexto realista e, principalmente, feedback estruturado sobre o que funcionou e o que pode melhorar. É justamente esse último elemento que costuma faltar na formação em saúde: há poucas oportunidades de simular uma anamnese, aprender fazendo, e tentar de novo com mais segurança na vez seguinte.

Treinar a escuta antes do paciente real

É aqui que a tecnologia pode apoiar, sem nunca substituir o papel do docente ou a supervisão clínica. O MedRoom Anamnesis, por exemplo, simula cenários de anamnese com pacientes virtuais, permitindo que o estudante conduza a entrevista clínica, investigue sintomas e pratique a comunicação em um ambiente com segurança para errar, sem o custo de um equívoco diante de um paciente real. Esse tipo de recurso amplia o número de oportunidades de treino, algo especialmente valioso quando o tempo de supervisão docente é, por natureza, limitado, e acompanha o estudante em um momento da formação que muitas vezes fica restrito a poucas tentativas presenciais.

O ganho está em aproximar essa prática do currículo de forma estruturada e não deixá-la depender exclusivamente da sorte de cair com alguém mais dedicado ao tema. Essa lógica dialoga diretamente com a virada que as próprias Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Medicina, atualizadas em 2025, buscam consolidar: um processo formativo centrado no desenvolvimento de competências, não apenas na transmissão de conteúdo (5).

Comunicar bem também é diagnosticar bem

Talvez a pergunta mais útil não seja se o diagnóstico é suficiente, mas outra: por que ainda tratamos comunicação e raciocínio clínico como coisas separadas, se um depende do outro para funcionar? Uma anamnese bem conduzida já é, ela mesma, parte do raciocínio diagnóstico, assim como uma orientação bem verificada já é parte do tratamento. Se a comunicação pode ser treinada com a mesma intencionalidade que se treina o exame físico ou a interpretação de exames, faz sentido que as instituições de ensino a acompanhem dessa forma: como parte estruturada do currículo, com prática repetida e feedback consistente.


(1) THE JOINT COMMISSION. Sentinel Event Data 2024 Annual Review. Oakbrook Terrace: The Joint Commission, 2025. Disponível em: https://digitalassets.jointcommission.org/api/public/content/eac7511986c0442a9c1ae04b1aa02cc0?v=ad34daa0. Acesso em: 17 ago. 2026.

(2) CHEHUEN NETO, J. A. et al. Letramento funcional em saúde nos portadores de doenças cardiovasculares crônicas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 24, n. 3, p. 1121-1132, 2019. DOI: 10.1590/1413-81232018243.02212017. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2019.v24n3/1121-1132/. Acesso em: 17 ago. 2026.

(3) TALEVSKI, J.; WONG SHEE, A.; RASMUSSEN, B.; KEMP, G.; BEAUCHAMP, A. Teach-back: A systematic review of implementation and impacts. PLoS ONE, v. 15, n. 4, e0231350, 2020. DOI: 10.1371/journal.pone.0231350. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0231350. Acesso em: 17 ago. 2026.

(4) DOHMS, M. C.; COLLARES, C. F.; TIBERIO, I. C. Brazilian version of Calgary-Cambridge Observation Guide 28-item version: cross-cultural adaptation and psychometric properties. Clinics, v. 76, e1706, 2021. DOI: 10.6061/clinics/2021/e1706. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8183315/. Acesso em: 17 ago. 2026.

(5) BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 3, de 30 de setembro de 2025. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 out. 2025.

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