O papel da instituição de ensino na adoção de tecnologia educacional

Adquirir uma ferramenta educacional e integrá-la ao currículo são decisões diferentes. A maioria das instituições faz a primeira. Poucas fazem a segunda com a intencionalidade que ela exige.

Há um padrão recorrente na trajetória de muitas iniciativas de tecnologia educacional em instituições de saúde: a ferramenta é adquirida com entusiasmo, usada de forma intensa nos primeiros meses (especialmente pelos docentes mais motivados) e gradualmente subutilizada até ocupar uma linha esquecida no orçamento. O problema raramente está na ferramenta. Está na ausência de uma decisão institucional real sobre o que fazer com ela.

Essa distinção entre adquirir tecnologia e adotá-la de forma pedagógica é o ponto de partida para entender por que tantas iniciativas de inovação educacional não produzem os resultados esperados, mesmo quando as ferramentas são genuinamente boas. A literatura sobre implementação de tecnologia no ensino superior é consistente em um ponto: o sucesso da adoção não depende primariamente da qualidade da ferramenta. Depende das condições institucionais que a recebem.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na PLOS Digital Health, que analisou 39 estudos sobre fatores que influenciam a adoção de tecnologia educacional no ensino superior, identificou quatro dimensões críticas: a expectativa de desempenho (os benefícios percebidos da tecnologia para o aprendizado), a expectativa de esforço (facilidade de uso e acessibilidade), a influência social (incluindo fatores institucionais e culturais) e as condições facilitadoras (como infraestrutura e suporte técnico) (1).

O dado mais relevante desse conjunto é a dimensão das condições facilitadoras. Ferramentas tecnicamente sólidas, com interfaces bem desenhadas e evidência pedagógica robusta, falham sistematicamente quando não há infraestrutura institucional para sustentá-las: formação docente adequada, suporte técnico acessível, ancoragem curricular clara e critérios de avaliação de impacto.

Uma revisão sistemática publicada na Education Sciences em 2023 identificou vinte barreiras distintas à transformação digital em instituições de ensino superior, organizadas em seis categorias: ambientais, estratégicas, organizacionais, tecnológicas, relacionadas a pessoas e culturais. A diversidade dessas categorias é, por si só, um argumento: nenhuma delas é resolvida apenas pela escolha da ferramenta certa. Todas exigem decisão institucional (2).

A diferença entre comprar e adotar

O desafio contemporâneo deixou de ser apenas incorporar ferramentas isoladas ao ensino. Instituições de saúde passam agora a lidar com ecossistemas digitais integrados, nos quais diferentes soluções tecnológicas (de visualização anatômica a simulação clínica, de análise de imagens médicas a dados de desempenho) precisam dialogar entre si de forma coerente dentro da estratégia pedagógica institucional. Gerir essa complexidade exige, da instituição, uma maturidade decisória que vai muito além da avaliação de ferramentas individuais.

Comprar uma licença de software é uma decisão administrativa. Adotar uma tecnologia educacional é uma decisão pedagógica (e as duas exigem competências e processos completamente diferentes).

A decisão pedagógica implica responder a perguntas que nenhum fornecedor pode responder pela instituição: em quais disciplinas a ferramenta será usada? Com que objetivos de aprendizagem? Como ela se integra ao projeto pedagógico e às competências que o curso pretende desenvolver? Que papel cabe ao docente na mediação do uso? Como o impacto será avaliado ao longo do tempo?

Quando essas perguntas não são respondidas antes da implementação, a ferramenta tende a ser usada de forma episódica e assistemática (presente no currículo no papel, ausente na prática real de ensino). E quando o contrato de renovação chega, a instituição não tem dados suficientes para avaliar se o investimento valeu a pena.

O docente como ponto crítico

Entre todas as condições institucionais que determinam o sucesso da adoção de tecnologia educacional, o preparo docente é provavelmente a mais subestimada.

Uma revisão publicada na Education and Information Technologies identificou que uma barreira significativa à implementação de tecnologia educacional é a avaliação equivocada que docentes e instituições fazem da capacidade dos estudantes de se adaptar a novas tecnologias (frequentemente superestimada) e do próprio preparo docente para mediar esse processo (3).

O docente que não entende o propósito pedagógico de uma ferramenta não consegue integrá-la de forma significativa ao ensino. Pode apresentá-la aos estudantes, indicar seu uso como recurso complementar, mas não consegue criar as condições em que a tecnologia realmente transforma o aprendizado. A formação docente para o uso pedagógico (não apenas técnico) de ferramentas educacionais é, portanto, parte indissociável de qualquer processo sério de adoção.

Assim, uma decisão institucional real de adoção de tecnologia educacional tem algumas características que a distinguem da simples aquisição. Ela começa com um diagnóstico pedagógico: que lacuna formativa essa ferramenta ajuda a resolver? Ela define claramente como a ferramenta se integra ao currículo, não como recurso opcional, mas como componente com objetivos de aprendizagem específicos. Ela prevê capacitação docente antes do lançamento, não depois. Ela estabelece critérios de avaliação de impacto desde o início, para que seja possível saber, ao final do primeiro ciclo, se a adoção produziu os resultados esperados.

Esse processo é mais trabalhoso do que assinar um contrato. Mas é o único que transforma tecnologia em estratégia pedagógica. E estratégia pedagógica em resultados mensuráveis para os estudantes.

A responsabilidade que não pode ser terceirizada

Fornecedores de tecnologia educacional podem oferecer ferramentas robustas, suporte técnico qualificado e evidência pedagógica sobre seus produtos. Mas não podem fazer pela instituição o trabalho de decidir como a tecnologia se encaixa no projeto formativo que ela se propõe a construir.

Essa responsabilidade é intransferível. E ela começa sempre com uma pergunta que coordenadores, membros de NDE e gestores acadêmicos precisam responder antes de qualquer aquisição: o que queremos que o estudante seja capaz de fazer que hoje não consegue, e como essa tecnologia contribui para isso?

A MedRoom oferece suporte pedagógico às instituições parceiras ao longo de todo o processo de implementação (desde o alinhamento curricular até o acompanhamento do uso e a interpretação dos dados de desempenho). Para saber mais sobre as soluções e o modelo de parceria, acesse o site ou explore o blog da MedRoom.


(1) FENG, Jiyuan; YU, Bin; TAN, Wee Hoe; DAI, Zetian; LI, Zengkun. Key factors influencing educational technology adoption in higher education: a systematic review. PLOS Digital Health, abr. 2025. doi: 10.1371/journal.pdig.0000764. Disponível em: https://journals.plos.org/digitalhealth/article?id=10.1371/journal.pdig.0000764

(2) GKRIMPIZI, Thomais; PERISTERAS, Vassilios; MAGNISALIS, Ioannis. Classification of Barriers to Digital Transformation in Higher Education Institutions: Systematic Literature Review. Education Sciences, v. 13, n. 7, art. 746, 2023. doi: 10.3390/educsci13070746. Disponível em: https://www.mdpi.com/2227-7102/13/7/746

(3) CHUGH, Ritesh; TURNBULL, Darren; COWLING, Michael A.; VANDERBURG, Robert; VANDERBURG, Michelle A. Implementing educational technology in Higher Education Institutions: a review of technologies, stakeholder perceptions, frameworks and metrics. Education and Information Technologies, 2023. doi: 10.1007/s10639-023-11846-x. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10639-023-11846-x

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