PBL, currículo tradicional, competências: qual modelo forma melhor o profissional de saúde?

O debate sobre modelos curriculares na educação em saúde tem décadas de evidência acumulada e não há resposta simples. O que a pesquisa mostra sobre cada abordagem, onde cada uma falha e o que isso significa para quem decide sobre formação.

Toda instituição de ensino em saúde opera, implícita ou explicitamente, dentro de um modelo curricular. Às vezes esse modelo foi escolhido com intencionalidade pedagógica. Às vezes é o que sempre foi feito. Às vezes é uma combinação de elementos de diferentes abordagens que foi se sedimentando ao longo do tempo.

O debate sobre qual modelo produz melhores profissionais não é novo. Tem pelo menos cinco décadas de pesquisa acumulada, dezenas de revisões sistemáticas e meta-análises e, mesmo assim, persiste mais pertinente do que nunca. Não porque a evidência seja fraca, mas porque a pergunta é mais complexa do que parece: melhor para quê? Em qual contexto? Com qual infraestrutura? Para formar qual profissional?

Este artigo não tenta resolver essa questão, mas mapeá-la com honestidade.

O currículo tradicional disciplinar: o que funciona e o que não funciona

O modelo disciplinar é o mais antigo e ainda o mais prevalente nas graduações da área da saúde no mundo. Sua lógica é sequencial: primeiro as ciências básicas (anatomia, fisiologia, bioquímica), depois as ciências clínicas, depois o internato. Cada disciplina tem seu espaço, sua carga horária, sua avaliação.

Os pontos fortes são reais. O modelo oferece estrutura clara, facilita a organização institucional, permite aprofundamento em conteúdos específicos e é familiar tanto para docentes quanto para estudantes. Em contextos com infraestrutura limitada e alta proporção de alunos por professor, sua previsibilidade tem valor.

As limitações, no entanto, estão bem documentadas. A fragmentação entre teoria e prática (estudar anatomia por dois anos antes de qualquer contato clínico significativo, por exemplo) produz estudantes que acumulam conhecimento sem saber aplicá-lo. A avaliação por provas de conteúdo mede retenção, não competência. E a transição para o internato frequentemente expõe uma lacuna entre o que foi ensinado e o que a prática exige (1).

O PBL: o que a evidência realmente diz

O Problem-Based Learning surgiu na McMaster University no final dos anos 1960 como uma ruptura deliberada com o modelo disciplinar. A ideia central é simples: organizar o aprendizado em torno de problemas reais, em pequenos grupos, com o estudante no centro da construção do conhecimento.

Nas últimas décadas, o PBL foi estudado extensivamente. As revisões sistemáticas e meta-análises disponíveis mostram um padrão consistente: estudantes de currículos PBL tendem a apresentar desempenho equivalente ou superior em competências clínicas, pensamento crítico e habilidades de comunicação quando comparados a estudantes de currículos tradicionais. A satisfação com o método é sistematicamente mais alta (2).

Mas o PBL tem limitações próprias que a literatura também registra com honestidade. A efetividade do PBL em termos de desempenho acadêmico e desenvolvimento de habilidades ainda está em discussão, em parte pela dificuldade metodológica de comparar currículos PBL com currículos tradicionais baseados em aulas. Estudantes formados em PBL frequentemente relatam lacunas em conteúdo básico sistematizado. O modelo é intensivo em recursos: requer tutores capacitados, espaços para pequenos grupos, casos clínicos bem construídos e uma cultura institucional que suporte a incerteza pedagógica. Em contextos com alta proporção aluno-tutor ou sem tradição de facilitação, o PBL degenera facilmente em discussão sem estrutura (3).

Há também a questão da escala. O PBL foi concebido para turmas pequenas. Adaptá-lo a cursos com centenas de estudantes (realidade frequente nas graduações brasileiras) implica concessões que comprometem parte do que o torna eficaz.

O currículo baseado em competências: promessa e desafios de implementação

O modelo de educação baseada em competências (CBME, na sigla em inglês) é a abordagem mais recente e a que mais tem orientado reformas curriculares globais nas últimas duas décadas. Sua lógica é diferente dos dois anteriores: em vez de organizar o currículo por disciplinas ou por problemas, organiza-o pelos resultados que o egresso precisa demonstrar. O que o estudante sabe importa menos do que o que ele consegue fazer.

Esse deslocamento tem implicações profundas. A avaliação deixa de ser sobre conteúdo e passa a ser sobre desempenho observável. O tempo de formação torna-se, em teoria, flexível (o estudante avança quando demonstra competência, não quando completa um número de horas). A responsabilidade do currículo é com o resultado, não com o processo.

A evidência sobre CBME é promissora em contextos bem implementados. As vantagens do CBME incluem foco em resultados e no progresso do aprendiz, avaliação multifacetada que integra abordagens formativas e somativas, suporte a uma trajetória flexível pelo currículo e maior responsabilização junto aos diferentes atores com um conjunto compartilhado de expectativas (4).

Mas os desafios de implementação são substanciais e bem documentados. Preocupações com abordagens reducionistas na avaliação, falta de boas ferramentas para avaliar algumas competências, necessidade intensa de desenvolvimento docente e inconsistências nas definições e frameworks de CBME aparecem de forma consistente na literatura. A implementação do CBME demanda esforços significativos e uma ampla gama de recursos financeiros, humanos, de tempo e de infraestrutura. Em contextos com poucos recursos, essa equação frequentemente inviabiliza a implementação genuína — e o que se chama de "currículo por competências" acaba sendo o modelo tradicional com nova nomenclatura (4).

O que a evidência permite concluir (e o que não permite)

Depois de décadas de pesquisa comparativa, a resposta honesta é: nenhum modelo é universalmente superior. O que existe é evidência sobre o que cada modelo favorece, em quais condições e com quais trocas ou contrapartidas.

O currículo tradicional garante cobertura de conteúdo e é viável em larga escala, mas produz graduados com dificuldade de integrar teoria e prática. O PBL desenvolve raciocínio clínico e habilidades de comunicação com mais consistência, mas exige infraestrutura e cultura institucional específicas. O CBME oferece a abordagem mais alinhada ao que se espera do egresso, mas é o mais exigente em termos de implementação, avaliação e desenvolvimento docente.

Proponentes e críticos continuam a debater os méritos do PBL, mas há evidência de que egressos de currículos PBL demonstram competências profissionais equivalentes ou superiores às de egressos de currículos mais tradicionais. O mesmo padrão ("funciona, mas depende de como é implementado") aparece em estudos sobre CBME (4).

O que isso significa na prática? Que a decisão curricular é menos sobre escolher o modelo certo e mais sobre implementar com consistência o modelo escolhido e criar as condições para que ele funcione: docentes capacitados, avaliação alinhada aos objetivos, infraestrutura adequada e mecanismos de feedback contínuo.

O que os três modelos compartilham e onde a tecnologia entra

Há um desafio que os três modelos enfrentam de formas diferentes, mas que nenhum resolve completamente pela arquitetura curricular sozinha: como garantir que o estudante tenha prática suficiente antes de assumir responsabilidades reais no cuidado de pacientes?

No modelo tradicional, essa prática vem tardiamente. No PBL, vem pelos problemas, mas é mediada, não direta. No CBME, é central, mas exige cenários de avaliação que nem sempre existem em volume suficiente.

É nesse ponto que plataformas de simulação clínica com feedback estruturado funcionam como recurso transversal, não vinculadas a um modelo curricular específico, mas capazes de ampliar a oportunidade de prática deliberada em qualquer um deles. O Clinical Case e o Anamnesis, da MedRoom, operam nessa lógica: criar espaço para que o estudante tome decisões, cometa erros e receba feedback estruturado, independentemente do modelo curricular em que está inserido.

O debate sobre qual currículo é melhor continuará. O que não pode esperar por esse debate é a formação do estudante que está na graduação agora.

Quer aprofundar o tema? Leia também Avaliação de aprendizagem em saúde: como medir o que o estudante realmente aprendeu e conheça o ecossistema MedRoom.


(1) HARDEN, Ronald M.; SOWDEN, Susan; DUNN, William R. Some educational strategies in curriculum development: the SPICES model. Medical Education, v. 18, n. 4, p. 284–297, 1984. doi: 10.1111/j.1365-2923.1984.tb01024.x. Disponível em: https://asmepublications.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2923.1984.tb01024.x

(2) NEVILLE, Alan J. Problem-based learning and medical education forty years on: a review of its effects on knowledge and clinical performance. Medical Teacher, v. 31, n. 12, p. e512, 2009. Nota: referência consolidada sobre o balanço da evidência comparativa PBL vs. currículo tradicional. Disponível em: https://scispace.com/pdf/problem-based-learning-and-medical-education-forty-years-on-3v8h8pa40p.pdf

(3) SERVANT-MIKLOS, Virginie F. C. Problem-solving skills versus knowledge acquisition: The historical dispute that shapes our understanding of problem-based learning. Advances in Health Sciences Education, v. 24, n. 3, p. 619–635, 2019. doi: 10.1007/s10459-018-9851-1. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6647442/

(4) FRANK, Jason R. et al. Competency-based medical education: theory to practice. Medical Teacher, v. 32, n. 8, p. 638–645, 2010. doi: 10.3109/0142159X.2010.501190. Disponível em: https://doi.org/10.3109/0142159X.2010.501190

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