Segurança do paciente começa na formação: o que a educação em saúde pode fazer antes do erro acontecer

A maioria das discussões sobre segurança do paciente foca em protocolos, sistemas e cultura organizacional. Menos atenção vai para onde o problema frequentemente tem origem: a formação dos profissionais que vão operar esses sistemas.

Quando se fala em segurança do paciente, a conversa costuma girar em torno de checklists cirúrgicos, notificação de incidentes, dupla checagem de medicamentos, cultura de não punição ao erro. Todos esses elementos são importantes e têm evidências que os sustentam. Mas há uma camada anterior a tudo isso que raramente recebe a mesma atenção: o que acontece antes do profissional chegar ao ambiente assistencial.

A OMS estima que o dano ao paciente reduz o crescimento econômico global em 0,7% ao ano, com custos indiretos na casa de trilhões de dólares. Entre as causas mais comuns de eventos adversos estão erros de medicação, procedimentos cirúrgicos inseguros, infecções relacionadas à assistência, erros diagnósticos e identificação incorreta de pacientes (1). São categorias diversas, mas têm algo em comum: todas envolvem decisões de profissionais. E decisões de profissionais são, em última instância, o produto da formação que receberam.

O que a formação tem a ver com o erro

Há uma tendência de tratar erros clínicos como falhas de sistema ou de protocolo, o que é parcialmente correto. Sistemas mal desenhados produzem erros independentemente da qualidade dos profissionais que operam dentro deles. Mas a outra face do problema é menos confortável: parte significativa dos erros que acontecem na assistência tem raízes em lacunas formativas que não foram identificadas nem corrigidas durante a graduação.

Segundo dados da Associação Médica Brasileira, apenas 27% dos médicos no Brasil completaram residência médica, etapa considerada essencial para a consolidação do raciocínio clínico e da tomada de decisão segura. O restante ingressa no mercado com lacunas práticas relevantes (2). Isso não é uma questão de competência individual: é uma questão estrutural, que começa antes da formatura e que se manifesta depois dela.

O problema específico da formação clínica é que ela dependeu, historicamente, de um modelo com uma limitação conhecida: o primeiro contato real com situações complexas acontecia diretamente com pacientes. O estudante observava um procedimento, depois o executava, depois ensinava a outro. Essa lógica do "veja um, faça um, ensine um" formou gerações de profissionais, mas tem um custo embutido: o aprendizado ocorre no mesmo ambiente onde os erros têm consequências reais. E as evidências acumuladas nas últimas décadas documentam os riscos concretos associados a profissionais inexperientes atuando em situações críticas sem preparação prévia estruturada (3).

O que pode ser feito antes

A resposta que a educação médica contemporânea vem construindo passa pela criação de ambientes onde o estudante pratica decisões complexas antes de enfrentá-las em contexto real. Não como substituto da prática assistencial, mas como preparação para ela.

A simulação clínica estruturada é reconhecida pela OMS como abordagem prioritária na formação em saúde. A crescente consciência sobre erros médicos impulsionou o interesse pela simulação como método educacional capaz de melhorar a competência clínica e a segurança do paciente (4).

A lógica é direta: um estudante que pratica anamnese, exame físico e tomada de decisão em cenários simulados progressivos chega ao internato com uma base diferente de um estudante que só observou essas práticas antes de executá-las. A diferença não está apenas no domínio técnico, mas na capacidade de reconhecer padrões, tolerar incerteza, comunicar-se sob pressão e rever hipóteses diante de novas informações, todas competências que o erro clínico cobra quando estão ausentes.

Isso não significa que a simulação resolve o problema da segurança do paciente. Significa que ela ocupa um espaço que o modelo tradicional deixa vazio: o espaço entre aprender o conceito e aplicá-lo pela primeira vez em um paciente real.

Segurança como competência, não como protocolo

Há uma distinção importante que o debate sobre segurança do paciente nem sempre faz com clareza: a diferença entre segurança como protocolo e segurança como competência.

Protocolos são necessários, mas protocolos só funcionam quando são executados por profissionais que entenderam por que existem. Um checklist cirúrgico não protege o paciente se o profissional que o assina não tem o julgamento clínico para perceber quando algo está errado. Uma dupla checagem de medicamentos não elimina o risco se quem executa não tem familiaridade com as faixas terapêuticas e contraindicações do que está prescrevendo.

Segurança como competência exige que o profissional tenha desenvolvido, ao longo da formação, a capacidade de reconhecer situações de risco, tomar decisões fundamentadas, comunicar-se com clareza em equipe e revisitar condutas quando o quadro muda. Essas competências não se desenvolvem em sala de aula teórica nem por exposição passiva a casos reais. Desenvolvem-se com prática deliberada, feedback estruturado e progressão de complexidade, elementos que ambientes de simulação podem oferecer de forma sistemática.

O Clinical Case foi desenvolvido com essa lógica: não apenas apresentar casos clínicos ao estudante, mas exigir que ele tome decisões, lide com as consequências dessas decisões e desenvolva progressivamente o julgamento clínico que a prática segura exige. O ambiente simulado cria o espaço para errar com segurança, antes que o erro aconteça com consequências reais.

O argumento para as instituições

Para coordenadores de curso e gestores acadêmicos, a questão da segurança do paciente raramente aparece como pauta curricular explícita. Ela costuma ser tratada como responsabilidade do internato, da residência, dos serviços de saúde.

Mas o que a evidência sugere é diferente: a integração curricular da educação baseada em simulação, quando estruturada dentro de um plano de treinamento padronizado e com processos avaliados, é uma contribuição concreta para a segurança do paciente (5). Isso significa que a decisão sobre como estruturar o currículo dos primeiros anos de graduação tem implicações que vão além da sala de aula, e que chegam, mais tarde, ao leito dos pacientes.

Segurança do paciente começa antes da formatura. Começa quando a instituição decide que preparar o estudante para a prática clínica é uma responsabilidade que não pode ser delegada inteiramente para depois da graduação.

Para aprofundar essa discussão, o blog da MedRoom reúne conteúdos que conectam formação, evidência e prática na educação em saúde.


(1) WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/patient-safety

(2) SANARMED. Médicos mal formados: o erro invisível que custa caro à saúde, 2025. Disponível em: https://sanarmed.com/medicos-mal-formados-o-erro-invisivel-que-custa-caro-a-saude

(3) EDWARDS, Jennifer J. et al. Simulation Training. PSNet — Patient Safety Network, 2023. Disponível em: https://psnet.ahrq.gov/primer/simulation-training

(4) ROBINSON, Samuel J.A. et al. Simulation-based education of health workers in low- and middle-income countries: a systematic review. Global Health: Science and Practice, v. 12, n. 6, e2400187, dez. 2024. doi: 10.9745/GHSP-D-24-00187. Disponível em: https://www.ghspjournal.org/content/12/6/e2400187

(5) GOMAR-SANCHO, Carlos et al. Simulation: A Training Resource for Quality Care and Improving Patient Safety. IntechOpen, 2019. Disponível em: https://www.intechopen.com/chapters/68899

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