Desigualdade de acesso à prática na formação em saúde: pode a tecnologia reduzir lacunas?
O Brasil tem mais de 494 escolas médicas e 50 mil vagas anuais de graduação. Mas a quantidade de campos de prática clínica adequados não cresceu no mesmo ritmo. Essa assimetria tem consequências diretas na qualidade da formação (e abre um espaço importante para a tecnologia).
O Brasil é hoje o segundo país do mundo com mais escolas médicas, atrás apenas da Índia (país com mais de 1,4 bilhão de habitantes, ante os 213 milhões do Brasil). Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o MEC autorizou 77 novos cursos de medicina, totalizando 494 escolas com 50.974 vagas anuais de graduação, 80% delas em instituições privadas, segundo dados da Associação Médica Brasileira (1). Esse crescimento acelerado levanta uma pergunta que não é retórica: para onde vão os estudantes quando chega a hora de praticar?
A expansão do acesso ao ensino médico tem um valor inegável do ponto de vista social. Mais vagas significam mais oportunidades, especialmente em regiões historicamente subatendidas. De acordo com o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, no ano de 2004, 51,2% das vagas de medicina estavam nas capitais; vinte anos depois, em 2024, esse percentual caiu para 34,8%, com municípios de menor porte concentrando 43,6% das vagas (2).
O problema não está no número de vagas. Está na infraestrutura que deveria sustentar a formação prática desses estudantes.
Um levantamento do Conselho Federal de Medicina identificou 200 hospitais de ensino no Brasil, número insuficiente, com 72% concentrados em cidades com mais de 500 mil habitantes. Por outro lado, 191 escolas médicas, ou seja, 55,7% do total, estão localizadas em municípios sem hospital adequado para a docência (3).
Isso significa que mais da metade das escolas médicas brasileiras opera sem o principal recurso para garantir a prática clínica supervisionada que a formação exige.
O que acontece quando a prática é insuficiente
Quando o campo de estágio é inadequado ou disputado por muitos estudantes ao mesmo tempo, a formação prática se torna desigual por definição. O que cada aluno aprende depende do hospital ao qual tem acesso, da diversidade de casos disponíveis, da qualidade da preceptoria e da estrutura de cada instituição.
Em entrevista recente ao Jornal do Comércio, o presidente da Associação Médica Brasileira alertou que a abertura de escolas privadas sem condições mínimas tem levado à formação de profissionais com experiências práticas precárias, especialmente concentrados na atenção básica e nos pronto-atendimentos, os ambientes onde as lacunas de campo prático são mais toleradas, mas também onde elas têm mais consequências clínicas.
Essa desigualdade formativa não é apenas um problema para os estudantes. Ela se converte, ao longo do tempo, em desigualdade de cuidado para os pacientes. Profissionais formados com menos prática supervisionada chegam ao exercício com menos repertório clínico e isso é sentido de forma desproporcional justamente nas regiões que já têm menos acesso a serviços de saúde qualificados.
O que a tecnologia pode (e o que não pode) fazer
É importante ser preciso sobre o que a tecnologia educacional pode oferecer nesse contexto. E também sobre o que ela não substitui. A tecnologia não cria hospitais onde não existem. Não substitui a relação entre estudante e paciente real, nem a supervisão de um preceptor experiente diante de uma situação clínica concreta. Esse é um ponto que a MedRoom reforça em seu posicionamento: tecnologia é meio, não fim.
O que a tecnologia pode fazer é garantir que, independentemente da estrutura do campo de estágio disponível, o estudante chegue a ele com uma base mais sólida. Visualização anatômica tridimensional, simulação de casos clínicos progressivos, treino de comunicação com pacientes virtuais; essas ferramentas não substituem a prática real, mas ampliam o repertório com o qual o estudante a enfrenta.
Em um país onde mais da metade das escolas médicas está em municípios sem hospital de ensino adequado, esse "chegar mais preparado" não é um diferencial, mas uma compensação parcial de uma lacuna estrutural que as instituições precisam endereçar com todos os recursos disponíveis.
A desigualdade de acesso à prática clínica não afeta todos os estudantes da mesma forma. Ela tende a ser mais aguda justamente nos cursos localizados em regiões de menor infraestrutura assistencial, muitas vezes as mesmas regiões onde a necessidade de profissionais bem formados é maior.
Quando uma instituição investe em simulação clínica estruturada e em recursos de visualização como parte do currículo, ela não está apenas melhorando a qualidade da formação em abstrato. Está tomando uma decisão que tem impacto direto na equidade do processo formativo, garantindo que estudantes de diferentes contextos tenham acesso a experiências de aprendizagem clinicamente orientadas, mesmo quando o campo prático presencial é limitado.
Para coordenadores e gestores acadêmicos que atuam nesse contexto, a pergunta relevante não é se a tecnologia resolve o problema estrutural da falta de campos de prática. Não resolve. A pergunta é: dado esse contexto, o currículo está equipado com todos os recursos disponíveis para preparar o melhor possível os estudantes para o que encontrarão na prática?
O Clinical Case e o Anatomy App foram desenvolvidos com essa compreensão: não como respostas a um problema que vai além da tecnologia, mas como ferramentas concretas para ampliar o acesso a experiências formativas de qualidade, onde quer que o estudante esteja.
Acompanhe o blog da MedRoom para conteúdos que conectam evidência, contexto e prática na formação em saúde.
(1) SCHEFFER, Mário et al. (Grupo de Pesquisa Demografia Médica no Brasil — FMUSP). Dados sobre cursos e vagas de medicina no Brasil, 2024–2025. Levantamento via Lei de Acesso à Informação. Disponível em cobertura da Folha de S.Paulo e APM: https://www.apm.org.br/brasil-ultrapassa-50-mil-vagas-anuais-em-medicina-apos-abertura-de-77-novos-cursos/
(2) SCHEFFER, Mário et al. Demografia Médica 2025. Departamento de Medicina Preventiva, FMUSP. Disponível em: https://med.estrategia.com/portal/atualidades/demografia-medica-2025-como-esta-o-cenario-da-graduacao-em-medicina-no-brasil/
(3) CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Hospitais de ensino são insuficientes. Portal Médico CFM. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/noticias/hospitais-de-ensino-sao-insuficientes/